A lua


Quando vi a lua pensei em fotografar a imagem. Pensei em imortalizar o momento, guardar aquela vista. Queria mostrar para alguém, sei lá, guardar mesmo, mas sabia que uma foto não resolveria, não igual ao que os meus olhos viam.

Pensei então em relaxar e continuar olhando. Algum tempo passara desde que eu a vi e alguns segundos perdi daquele sentimento, pensando em conservá-lo para poder mais tarde voltar a ele quando quisesse.

Logo me dei conta de que não era a visão, mas o que ela provocava em mim: um sentimento bom, evocado pela imagem - que eu queria prolongar o quando pudesse, compartilhar pra que vissem o que senti. Mas pensei também "que bobagem", que ninguém sentirá necessariamente o que eu senti. E que alguns até não dariam crédito àquela foto, pensariam ser uma montagem ou algo assim.

Mas era uma viagem longa. O avião, à noite, voava por sobre as nuvens e durante muito tempo eu via aquela lua, refletida no mar negro, muito abaixo de mim, um reflexo tímido que quase nada significava.

O tempo passava e o sentimento mudava, escrutinava minhas ideias e o que eu deixava pra trás numa viagem quase sem volta, tão alto, tão só. Pensava em quanto tempo levaria pra aquela lua sumir.

Então percebi que ela já mudava de lugar, muito devagar, mas ela mudava. E nenhuma cidade ou luzes, ou terras surgiam em seu lugar. E eu já queria que ela se fosse. Queria que algo novo viesse transformar aquele quase-tédio, meio angústia, meio pressa.

Pensei que o tempo sufoca até a beleza, que o contemplar nos força ver o que não queremos. Vi então o limite daquele sentimento, que por pouco tempo quase me enganou, quase me fez acreditar que o que eu sentia era bom. Eu pensei mesmo que era bom e belo, mas era medo, era escuro, como voar sobre um abismo. E me entreguei de novo à ânsia de pousar.


Comentários

Postagens mais visitadas